No fundo do poço
O fundo do poço é
igual à boca do poço, só que é diferente. No fundo do poço tudo
parece continuar na mesma. Os dias se sucedem, os problemas e os
livros na mesinha de cabeceira se acumulam, as contas chegam, chove e faz sol como a meteorologia
é servida. A aparência de normalidade é tão angustiante que dá
vontade de gritar. Para quem está no fundo do poço, “normalidade”
é um estado que não existe.
Problemas e
contratempos que, na superfície, têm enorme significado, passam a
acontecer num universo paralelo, sem substância. No fundo do poço
nada tem importância além do que realmente importa: a pedra no
peito, o medo de pensar, o pavor do silêncio, a ausência de sinais
de vida verdadeira.
O ar é pesado no fundo
do poço, mais ou menos como a água que, em mergulhos profundos, é
tão pesada que achata as bolhas de ar. Quem já esteve no mar sabe
como é. É por isso que, no fundo do poço, às vezes até respirar
dói.
O mundo e as pessoas
são diferentes vistos do fundo do poço; os gestos – ou a ausência
deles – ganham dimensões às vezes amplificadas, às vezes
distorcidas, como imagens vistas à distância num deserto
escaldante. Por outro lado, se há uma vantagem no fundo do poço, é
a nitidez com que se percebem os sentimentos, nossos e dos outros.
Amigos próximos que
não dão sinal de vida talvez não sejam tão amigos ou tão
próximos; conhecidos distantes, às vezes até geograficamente,
revelam-se surpreendentemente próximos. No fundo do poço, qualquer
carinho reverbera nas paredes e, como um eco, é por elas
amplificado; um abraço mais apertado, um olhar que diz “Estou
aqui”, um email. O silêncio, inversamente, escorre poço abaixo,
como uma gosma gelada, criando dúvidas e distâncias onde, em
circunstâncias normais, nada existiria. Mas, eu não sei se já
disse, no fundo do poço não há circunstâncias normais.
A vida não para no
fundo do poço, mas se torna bastante difícil. Acordar é uma
decisão penosa, e muitas vezes inútil: acorda-se na cama para pouco
depois se adormecer no sofá. Nos dias bons dorme-se o tempo todo no
fundo do poço, um sono pesado e sem sonhos. Nos dias ruins quase não
se dorme, porque basta fechar os olhos para que os sonhos se
transformem em pesadelos. Os dias ruins, infelizmente, são maioria.
No fundo do poço o
cérebro é, na melhor das hipóteses, um orgão inútil. Não serve
para nada. É incapaz de se lembrar de um nome, de um número ou de
tarefas a cumprir. Não consegue se concentrar o suficiente para a
leitura de um livro, ou para que um filme faça sentido: no fundo do
poço, um filme é apenas uma sucessão de imagens desconexas e
desinteressantes, incapazes de segurar o olhar.
Reduzido ao seu nível
mais primário de funcionamento, o cérebro serve apenas para
executar tarefas simples, como jogar games de celular ou subir fotos para
o Instagram.
Mas não me entendam
mal: um cérebro imprestável desses é uma benção, porque nos dias
em que funciona como deveria, o cérebro é a mais eficiente máquina
de lembranças e pensamentos torturantes.
Nada vale a pena no
fundo do poço: sair de casa, andar pela cidade, ir ao shopping,
criar ikebanas, montar quebra-cabeças. Dizem que exercício ajuda,
mas para fazer exercício é preciso chegar à academia, e para
chegar à academia é preciso sair de casa – sair de casa sendo,
talvez, uma das coisas mais difíceis de se executar no fundo do
poço. Até encontrar os amigos é complicado, porque as conversas se
tornam tão difíceis de acompanhar quanto a atmosfera feliz que
costuma reger tais encontros.
Viajar quebra um pouco
essa rotina asfixiante, mas na verdade não resolve nada, apenas leva
o fundo do poço para outra paisagem.
Os gatos sabem o que é
o fundo do poço e evitam perder seu bípede de vista. Fazem turnos
de colo e de demonstrações de afeto e, à noite, esquecem suas
eventuais divergências para dormir todos juntos na cama, formando
uma pequena barreira de bigodes contra os maus espíritos.
O fundo do poço tem
poder. Quanto mais tempo se passa no fundo do poço, mais tempo se
passa no fundo do poço. Lutar contra o fundo do poço é
praticamente impossível. Pode-se fugir dele por pequenos intervalos
de tempo, com simulacros mínimos de normalidade: acender
bastõezinhos de incenso, fazer as unhas, passar hidratante, cortar o
cabelo, usar perfume. Não adianta nada, mas despista.
Não existe alívio, nem válvula de escape. Somente o vazio, pesado e sufocante.
Não se consegue chorar
no fundo do poço.
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