Sem nome
Sob o cansaço de mim mesma,
o cansaço dos tempos,
o peso do próprio nome,
da persona, das mentiras, das projeções,
da máscara que coloco, da maquiagem que faço,
das unhas que pinto,
em minha idade,
eu vivo.
E espero
que por aquela porta,
entrem os definitivos anjos da vingança,
espadas que brilham no ar,
cujo som corta em dois o indivisível
e minha pele,
e minha carne,
e meu sangue,
e minha vida.
Espero mais pro irreversível fim,
pela última porção de terra
sobre a sepultura,
o silêncio,
eterno;
que pela vã esperança de
remissão de todas as culpas,
e pela perfeição do mundo.
Me apagarei, aos poucos,
nos dias,
na memória,
pra sempre.
Ser lúcida é esperar o fim,
sem qualquer deslumbre.
Quando vier, pé na porta,
encontrará uma pessoa de olhar tranquilo.
Os maiores mortos
aqueles dos quais a Morte guarda lembrança e
orgulho da profissão,
foram aqueles que ela encontrou tranquilos,
e que ao entrar,
cruzaram os olhares,
frente a frente,
eles olharam nos olhos, sem medo,
a Morte respeita
os que simplesmente olham,
deixam o copo de whisky,
calmamente
na mesinha,
e no olhar, se apresentam um pro outro,
ambos sabem o que aquele momento significa,
e dizem, com um balançar calmo de cabeça:
vamos acabar com isso.
Encerrada em meu anseio,
espero.
Um olho na TV,
outro na porta.
Jovens deslumbram.
Sentem raiva.
Desejam vingança.
Aqui,
eu apenas aceito.
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